Subjetividade como Magia
a capacidade de intervir no campo do sentido
Por que existe a palavra mágica?
Por que existe essa palavra… essa palavra mágica?
Mágica tem esse som, né? Já carrega um significado maior. Parece que, na velocidade da luz, quando a gente fala “mágica”, o nosso cérebro já sente o que ela é. A palavra parece conter mais do que conseguimos explicar de imediato, como se soubéssemos o que ela aponta antes mesmo de saber sua definição. As sílabas são leves, abertas, têm algo de aéreo, algo de… mágico. Antes mesmo de definirmos, essa palavra já produz um efeito. Quando a gente diz mágica, parecem surgir imagens de cor, brilho, luz em movimento, faíscas, poeira dourada. Dá até vontade de sorrir.
Mas o que a gente está realmente nomeando? O que essa palavra significa quando a usamos? O que ela capta? Transmite?
Estava lendo que a palavra magos aparece muito cedo na literatura grega, no século V antes de Cristo, em um fragmento do filósofo Heráclito. Nesse trecho, ele enumera aqueles que são objeto de profecias: “os que vagueiam à noite. Magos, bacantes, ménades, iniciados”. A partir daí, surge o termo magia, que designa a atividade do magos, ou seja, magia num sentido amplo. Esse termo aparece também em textos de Hipócrates, de Platão e de outros autores. Nesses contextos, refere-se com frequência aos magoi, persas, incluindo entre eles a figura lendária de Zaratustra, o Zoroastro.
Muitos etimologistas conectam magos e magia à raiz indo-europeia mag, que significa “ser capaz”, “ter poder”, “poder fazer”. Essa mesma raiz sustenta palavras que usamos até hoje: no inglês may e might; no alemão macht; no grego mechane, de onde vem máquina. Em inglês, machine confirma essa relação. É curioso como magia nasce de um campo semântico ligado ao poder, à capacidade e ao instrumento.

Mas, ao longo da história, a ideia de magia foi se transformando. Na Antiguidade, era um conjunto de práticas e saberes que faziam a leitura do mundo. Eram pessoas que interpretavam os astros, os sonhos, os ciclos da natureza. Não havia uma separação clara entre magia, religião ou medicina — enfim, uma forma de agir no cosmos.
Na Idade Média, esse saber se tornou instável. Parte do que era visto como natural passa a ser suspeito e demonizado. Uma parte da magia é condenada, associada a pactos, heresias, perseguições… vocês sabem bem. Mas, ainda assim, ela continua sendo considerada um poder real e, exatamente por isso, perigoso.
No Renascimento, especialmente na Itália, alguns pensadores recuperam saberes da Antiguidade. A magia reaparece como magia natural, uma ciência de espelhamento entre o humano, a natureza e o cosmos. Ela passa a ser vista como um conhecimento elevado, ligado à filosofia, à música, à matemática, à astronomia, à imaginação e à alma.

É nesse momento especial da história que surge Giordano Bruno, que escreve tratados explicitamente dedicados à magia, como De Magia de Vinculis in Genere. Para ele, a magia é uma ciência das relações. Uma arte de compreender e operar os vínculos invisíveis que conectam todas as coisas. O mundo é feito de ligações, tudo está conectado, pessoas, emoções, ideias, natureza, planetas. O que realmente move o mundo são os vínculos invisíveis que ligam uma coisa à outra. Magia, para ele, é a capacidade de entender e influenciar essas conexões. Quem compreende como funcionam os laços entre imagens, palavras, sentimentos e desejos consegue mudar a forma como as pessoas agem e como a realidade se organiza. A magia opera nas relações vivas que movem o mundo. Por isso, ele atribui muita importância à imaginação. As imagens orientam ações, organizam afetos e dão forma a realidades compartilhadas. Existe essa potência relacional no mundo, que nos atravessa e à qual temos acesso, e é nesse campo que a magia acontece. Guardem isso.
Giordano Bruno foi condenado, por suas ideias cosmológicas e por defender um universo infinito, desafiando o poder da Igreja de sua época. Ainda assim, esse ponto da magia renascentista é fundamental, pois é uma forma de se relacionar com a realidade.

Então, na modernidade, algo se rompe novamente. A ciência entra em cena, o mundo passa a ser descrito como um mecanismo, e tudo o que não se encaixa nesse modelo é expulso. A magia perde seu lugar ontológico e é reduzida à superstição, à ignorância. Aquilo que antes era uma forma de relação com o real passa a ser visto como crença falsa. Agora então, na nossa modernidade tardia, esse esvaziamento se intensificou. Hoje, a magia sobrevive quase exclusivamente como fantasia, desenhos infantis, filmes, entretenimento. Vai para o cinema, para universos ficcionais, desconectada da realidade.
E é aí que eu proponho uma retomada diferente.
Eu penso que uma equivalência possível para a palavra magia é a nossa subjetividade. Porque temos sempre a capacidade de reinterpretar os acontecimentos. E isso se dá nas relações, retomando a sabedoria de Giordano Bruno. E estamos sempre em relações: com lugares, pessoas, coisas, épocas, ideias. Mas, especialmente, para mim, falo da relação terapêutica. A psicologia junguiana, inspirada em Carl Gustav Jung, é um método dialético, um espaço em que a experiência pode ser dita, escutada, questionada e, pouco a pouco, transformada em compreensão. Não se trata apenas de falar sobre as coisas, mas de permitir que aquilo que foi vivido, muitas vezes de forma fragmentada, inconsciente ou silenciosa, encontre linguagem, imagem e sentido.
E é nesse processo que eu vejo a mágica acontecer. O passado, evidentemente, não muda. A magia não tem esse poder. O que se transforma é a posição da consciência diante do passado. Aquilo que antes operava como destino cego pode, no presente, ser simbolizado, integrado e re-inscrito na história do sujeito. A experiência deixa de ser apenas algo que aconteceu e passa a ser algo que pode ser habitado, vivido, manejado. A realidade se transforma. A atitude em relação à vida pode mudar. Infinitas novas possibilidades.
Dois exemplos ajudam a entender isso.
O primeiro é o de Viktor Frankl, que, vivendo o horror dos campos de concentração, observa que tudo pode ser tirado de um ser humano, tudo, exceto a liberdade de escolher sua atitude diante do que acontece. Isso não apaga o sofrimento, não o romantiza, mas impede que ele ocupe o lugar do absoluto. A partir disso, Frankl desenvolve a logoterapia, centrada no sentido. Ele nunca disse “tudo é bom” ou “é só mudar o pensamento”. O que ele afirmou é algo muito mais completo, veja : há situações que não podem ser mudadas, mas nelas ainda é possível escolher a posição interior a partir da qual se vive o que acontece. Isso não é positividade, é responsabilidade de continuar sendo sujeito da própria experiência. Essa distinção está na profundidade com que cada um habita o que viveu.
Passando por dois pontos importantes, o contato real com a dor, porque, se a dor não foi atravessada, não há ressignificação, apenas fuga. E a transformação do sujeito, e não do fato. Do interno e nao do externo. O acontecimento permanece, o que se desloca é o lugar de onde ele é vivido.

O segundo exemplo é o de Boethius, preso injustamente no século VI e condenado à morte. Durante meses na prisão, ele escreve A Consolação da Filosofia, encenando um diálogo com a Filosofia personificada. A realidade externa não muda, mas a experiência interna se reorganiza. A situação se torna habitável.

E é exatamente aí que o trabalho da psicologia atual acontece… Recontar a própria história, renomear, simbolizar, compreender. Isso muda o campo de sentido em que os acontecimentos continuam ativos dentro de nós. Nunca é sobre apagar o que aconteceu, e sim retirar essas narrativas do lugar de ditadoras do nosso próprio ser.
Então, a mágica, ao meu ver, é essa capacidade de transformar a realidade ao transformarmos a forma como ela se organiza, a partir do nosso próprio e único mundo interno. O mundo é continuamente interpretado por cada um de nós, e essa interpretação produz efeitos reais.

A magia é uma potência inerente à natureza humana: a capacidade infinita de rever, ressignificar e participar da gênese da realidade. E acontece justamente onde a realidade permanece viva e em processo, em cada dia que começa. Então, é saber que a gente consegue transformar ou intervir na vida que ainda está se formando e que ainda está se desenrolando enquanto nossos corações estão aqui batendo e nossos pulmões estão… respirando. E isso vai se manifestar na maneira como a alma habita o mundo.
A magia, no fim das contas, é essa capacidade profundamente humana de fazer algo com aquilo que nos é apresentado. Depois de dilaceramento, buraco fundo, da agonia, da ferida. Magia que acontece dentro da gente, em lugares impalpáveis, que transformam experiência em sentido, sofrimento em elaboração, destino em possibilidade. Voltando ao termo proto-indo-europeu, datado de 6.000 a 8.000 anos atrás, a raiz mag, que significa “ser capaz”, “ter poder”, “poder fazer”, aponta para a capacidade e a liberdade infinitas de olhar para o que acontece, de processar os acontecimentos, de interpretar cenas e de revisitar e criar a própria história.
É nosso esse poder criativo que não se esgota, que permanece ativo enquanto há vida, até a última batida do coração. Um poder de operar no campo do sentido, de reorganizar a experiência e de intervir na forma como a realidade se apresenta . Atenção. Não por controle ou onipotência. Por p a r t i c i p a ç ã o. Interagir com a realidade a partir da riqueza de dentro de si mesmo é sim, um tipo de mágica.



Então, é saber que a gente consegue transformar ou intervir na vida que ainda está se formando e que ainda está se desenrolando enquanto nossos corações estão aqui batendo e nossos pulmões estão… respirando. E isso vai se manifestar na maneira como a alma habita o mundo. 🙏🏼🙏🏼
O texto todo fiquei pensando na carta O Mago do tarô, inclusive ressignificando ela e entendendo de outras formas a jornada nessa vida.
Gostei muito!! Obrigada.
Um beijo