Vida Porosa
poros, membranas e passagens
Esses dias, estava sentindo a brisa passando por mim e por tudo ao meu redor. O vento atravessava as copas das árvores, fazia as folhas estremecerem, meus cabelos balançarem suavemente. Entrava nos meus pulmões, saía, entrava de novo. Até onde ele entra em nós? O vento apenas nos contorna ou também nos atravessa? Foi então que comecei a pensar nos poros, os furinhos na minha pele, como pontos de comunicação e troca com a existência.
Poros, em grego antigo πόρος, quis dizer passagem, abertura, quis dizer também “vau”, o lugar raso de um rio onde se pode atravessar a pé, como um caminho para atravessar um obstáculo. Daí também deriva a ideia de recurso, de encontrar um caminho, uma saída. A mesma raiz, per-, vira porta, o ponto por onde se entra numa casa. Vira portar, carregar algo através. Poro é parente de porta. Faz sentido, não?

Meu primeiro pensamento vai para o corpo, afinal, o órgão que parece nos separar do mundo, que nos dá contorno, a pele, é inteiramente atravessada por poros. Essas pequenas passagens que mantêm uma troca constante com o ambiente. Os poros da pele foram apenas a primeira pista, e logo descobri que essa lógica se repete por todo o corpo. Em biologia, essas passagens acontecem através de estruturas chamadas membranas, que são películas extremamente finas que delimitam células, órgãos e tecidos. À primeira vista, podem parecer barreiras, mas elas são seletivamente permeáveis, deixam algumas moléculas atravessarem, bloqueiam outras, e controlam essa troca incessante entre um lado e outro. Será que tudo é permeável?
Por exemplo, graças à permeabilidade do intestino que moléculas de glicose, aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e minerais atravessam a parede intestinal. Assim deixam de fazer parte do alimento e passam a circular na nossa corrente sanguínea, passam a fazer parte da gente, nos mantendo vivos. Tudo o que compõe o nosso corpo, proteínas, lipídios, carboidratos, minerais e até a maior parte da água que carregamos, precisou permear essa membrana antes de se tornar parte de nós.
Nos pulmões, o oxigênio do ar atravessa a delicadíssima membrana dos alvéolos, entra na corrente sanguínea e passa a ser transportado pelas hemácias. É pela permeabilidade dos pulmões, que um pedaço invisível da atmosfera passa a circular dentro da gente, nos mantendo vivos.
Até nossos pensamentos dependem da permeabilidade. Um pensamento só nasce porque, quando um impulso elétrico chega ao fim de um neurônio, canais microscópicos na membrana se abrem por uma fração de segundo e deixam íons passarem. É essa passagem, esse instante de abertura, que libera neurotransmissores, capazes de atravessar o espaço entre um neurônio e outro e reacender o impulso do lado seguinte. Bilhões dessas pequenas passagens acontecem a cada segundo, e delas emerge aquilo que chamamos de pensamento.
E os sentidos, que são literalmente portas, passagens, poros, no sentido grego do termo? Lugares onde o mundo atravessa nossos limites. Pela pupila entram fótons que viajaram milhões de quilômetros desde o Sol. Pelo nariz entram moléculas desprendidas de uma flor ou de uma floresta, pelo ouvido entram vibrações produzidas no ar. Pela pele, pressão, temperatura e textura se transformam em impulsos nervosos. Acho que o espanto, o maravilhamento, o awe, seja exatamente o momento em que essa porta se abre um pouco mais do que o de costume, e um pedaço extra do infinito atravessa a gente pra dentro.
Mas nem só de corpo vive o humano, a psique parece seguir a mesma lei. Ela também possui suas membranas, seus poros, suas passagens. No campo mais profundo da vida psíquica, consciente e inconsciente nunca estão completamente separados. Sonhos, símbolos, imagens, intuições e afetos emergem de frestas por onde algo do inconsciente atravessa e alcança a consciência. É por essas passagens, essa permeabilidade, que nos conhecemos, que temos acesso ao que somos além do que conhecemos, e aprofundamos a nossa existência.


No campo emocional, nosso sistema nervoso foi moldado pra estar em relação com a emoção do outro. Somos inevitavelmente permeáveis uns aos outros. Existe porosidade ali também, que faz a gente sentir o estado emocional alheio, que entra na gente. Talvez valha a pena imitar a inteligência que a célula já tem há bilhões de anos, a porosidade seletiva da membrana. Afinal, uma célula que deixa tudo entrar morre, e uma célula que impede toda troca também morre. Elas têm uma inteligência própria sobre o que absorver e o que recusar. No campo emocional, pode ser que exista a mesma aprendizagem. É através dessa inteligência regulatória que corpo e alma se mantêm vivos.
Pensando assim, até a atmosfera funciona exatamente como uma membrana em escala planetária. Ela deixa passar a luz visível, a mesma que alimenta toda a fotossíntese do planeta, mas barra a maior parte da radiação ultravioleta, dos raios X, dos raios gama, tudo aquilo que destruiria a vida na superfície se atravessasse sem filtro. E ainda retém calor, impedindo que o planeta esfrie demais à noite. A mesma lógica da célula, a mesma lógica da pele, repetida na escala de um planeta inteiro girando ao redor do Sol.

Aqui embaixo, na biosfera também, para você ver como esse princípio é amplo. Uma semente passa boa parte da vida como se fosse pedra, totalmente seca, fechada em si mesma. Mas existe nela um poro minúsculo, a micrópila, por onde a água encontra passagem pela primeira vez. Ali a semente bebe, incha, racha a própria couraça, e desperta. Um carvalho inteiro vem dessa única frestinha. A folha também vive de passagens, elas têm pequenas aberturas chamadas estômatos (do grego stoma, “boca”). Cada uma delas é cercada por duas células que incham ou murcham ao longo do dia, abrindo e fechando essa boquinha. Quando ela se abre, o dióxido de carbono entra para alimentar a fotossíntese; ao mesmo tempo, vapor d’água e oxigênio saem. E até as pedras! A coisa que parece mais fechada do mundo é atravessada por vazios microscópicos entre seus grãos minerais. É por eles que a água se infiltra, congela, expande e racha o que parecia sólido demais e impermeável. São esses mesmos caminhos que sustentam os aquíferos, água atravessando a rocha durante séculos, enquanto, por fora, ela continua parecendo solidez pura.
Somos feito de aberturas, e é assim a fronteira na biologia, separando um dentro de um fora, porém mantendo o fluxo, a troca, sem nunca fechar essa fronteira por completo. Na pele psíquica também, fronteiras entre o divino, o humano, a natureza e os objetos são fluidas, porosas e maleáveis.
No fundo, a vida está o tempo todo atravessando paredes. O ar atravessa os pulmões. A água atravessa raízes, sementes, pedras e pele. A luz atravessa a atmosfera e a retina. Moléculas do alimento atravessam o intestino. Íons atravessam membranas. Neurotransmissores atravessam sinapses. Emoções atravessam pessoas. Inconsciente atravessa consciente. Em todas as escalas, aquilo que parece separado continua em relação, e a vida cria passagens por toda parte.
Kafka escreveu, numa carta a Milena: “De certa forma, você é matéria de poesia. Você é cheia de sutilezas nebulosas que eu estaria disposto a passar a vida inteira decifrando. As palavras explodem na sua essência, e você carrega a poeira delas nos poros da sua individualidade etérea.”
Acho que era isso que eu já sentia, sem saber, quando o vento bateu na minha pele lá no início deste texto. Que a nossa individualidade também é porosa, etérea. Que carregamos, nos poros de quem somos, a poeira de tudo que nos atravessa e assim essa permeabilidade da vida é que pode fazer poesia.



Vida atravessando- nos...viva a escrita de quem atravessa mundos 🌎
Amei pensar que "um pedaço invisível da atmosfera passa a circular dentro da gente..." Você escreve sobre ciência como uma poeta. Obrigada por compartilhar suas iluminações :)