Tropismos da vida
Crescer entre forças
Ao nosso redor, um processo delicado se desenrola quase imperceptível aos olhos humanos, pois segue um ritmo próprio, mais próximo dos movimentos do cosmos do que da aceleração constante do mundo humano. Um astro imenso e luminoso, com bilhões de anos, situado a milhões de quilômetros da Terra, orienta pequenas plantas frágeis e passageiras aqui embaixo. Esse fenômeno recebe o nome de Fototropismo, movimento das plantas em direção à luz.
Tropismo é o nome dado ao movimento de crescimento de uma planta em resposta a um estímulo do ambiente. Não é escolha, decisão, instinto. É o organismo respondendo ao que o mundo apresenta, e crescendo na direção dessa resposta. A luz chama, e a planta vai. A gravidade puxa, e a raiz desce. A água está próxima, e as raízes se inclinam para lá. O toque de um fio, e a trepadeira se enrola. Fototropismo, geotropismo, hidrotropismo…. entre outros. Cada estímulo, uma direção. Cada direção, uma forma de vida.
Será que somos tão diferentes? Também crescemos em resposta ao que a vida nos apresenta. Crescemos em direção ao que nos aquece e nos nutre. No reino vegetal, Termotropismo, crescimento em direção ao calor, e quimiotropismo, crescimento em direcao a região no solo com mais nutrientes. Nos enrolamos no que nos sustenta. Tigmotropismo crescimento ou curvatura de uma planta em resposta ao toque ou contato físico com um objeto.
Em 1880, Charles Darwin e seu filho Francis Darwin realizaram experimentos simples com brotos de capim. Ao cobrirem as pontas dos brotos, observaram que as plantas deixavam de se curvar em direção à luz. A conclusão revelou um mecanismo preciso, a pontinha do broto percebe a luz, e envia um sinal ao restante do caule. Essa investigação abriu caminho para a compreensão de um hormônio vegetal, a auxina.

Quando a luz toca um lado do caule, a auxina migra para o lado oposto, que está na sombra. Ali, ela faz as células crescerem mais. E é exatamente esse crescimento desigual que curva o caule, o lado escuro empurra a planta em direção à luz.
Vocês acham que crescer em direção a luz é uma decisão? Ou existe nela um sistema sensível, um princípio vital, que percebe o mundo, e a partir disso, seu próprio corpo se reorganiza?
No século III d.C., um filósofo chamado Plotino, principal nome do neoplatonismo, falava algo semelhante. Para ele o Bem, ou o Uno, é como o princípio supremo de toda a realidade, uma fonte originária de onde tudo emana. Uma presença que irradia continuamente, como o sol, sustentando tudo o que existe. Por isso, cada ser tende a ele por sua própria natureza, e a alma se inclina ao Bem de modo espontâneo, movida por uma orientação interna. No microcosmo biológico, parece como uma planta que cresce em direção à luz.
Ibn Arabi, místico do século XIII, disse que o universo é atravessado por um anseio chamado “shawq”. Uma força que orienta cada ser em direção à sua origem divina. Uma uma inclinação inscrita na própria existência, uma orientação que atua mesmo sem consciência explícita. Também, penso eu, como no crescimento vegetal guiado pela luz.
Outro aspecto dessa inteligência botânica-solar reside no fato de que o lado que impulsiona o crescimento não é o iluminado. É o que está na sombra. Algo semelhante pode ser percebido na psique. Para Carl Jung a nossa transformação se dá na relação com aquilo que permanece oculto, esquecido ou não vivido. Esse lugar carrega energia e dinamismo, e pode se tornar fonte de movimento e formação. Assim como no caule da planta, o impulso do crescimento, em nós emerge da região menos iluminada.
Algumas plantas, além de crescerem em direção à luz, acompanham seu percurso ao longo do dia. Heliotropismo. O girassol jovem, segue o trajeto do sol de leste a oeste, movendo seu corpo acompanhando essa presença que atravessa o céu. Durante a noite, no escuro, ocorre um movimento igualmente significativo: ele se reorienta lentamente para o leste, fazendo o movimento de volta, preparando-se para o amanhecer. Esse ritmo invisível, guiado por um compasso interno, se repete continuamente até que, ao amadurecer, o girassol se estabiliza voltado para o nascente, como quem encontra sua direção. Também fazemos nossas caminhadas no escuro da vida, e com a maturidade, aos poucos, surge uma espécie de firmeza interior e desenvolvemos um olhar mais centrado.
O Geotropismo, ou gravitropismo, é a resposta das plantas à gravidade. Enquanto o caule cresce em direção ao sol, as raízes crescem em direção contrária, para baixo, para o escuro da terra. O mesmo hormônio, a auxina, coordena os dois movimentos. A planta precisa da luz e da terra simultaneamente, e sustenta esses dois movimentos opostos.
Assim como o geotropismo, para Jung o desenvolvimento psíquico é a capacidade de sustentar as tensões entre opostos. Pensamento esse, que veio de sabedoria bem antiga, de Heráclito para quem a harmonia nasce justamente do conflito entre forças contrárias. Há milhões de anos, a vida vegetal se organiza nesse jogo entre forças, crescendo entre luz e terra, vivendo a partir dessa tensão, sem precisar se reduzir a uma delas. O que vemos ao nosso redor é uma forma de inteligência que cresce sustentando opostos.
Em outra linguagem, esse princípio também vive na experiência humana. É nesse campo de forças que Jung situa o processo de individuação, um desenvolvimento que já se encontra inscrito no ser, anterior à escolha consciente. O Self atua como um centro que orienta esse percurso, ainda que atravessado por influências, desvios, incertezas e adaptações. Crescer, nesse sentido, aproxima-se menos de escolher um único caminho e mais de sustentar a tensão entre eles, permitindo que algo se organize a partir desse equilíbrio vivo. Também crescemos entre forças que puxam em direções opostas. Medo e coragem. Segurança e liberdade. O que conhecemos e o que nos chama para além. Não é confortável sustentar essa tensão. Mas aí o crescimento acontece, quando conseguimos permanecer no meio, entre o que puxa para baixo e o que aponta para cima, entre a raiz e a luz.
Walt Whitman intitulou sua obra mais célebre Folhas de Relva. O mesmo capim humilde que Darwin usou para entender como a vida se orienta em direção à luz. Em Song of Myself, poema central da obra, ele escreve : “Do I contradict myself? Very well then I contradict myself. I am large, I contain multitudes.” Folha de capim, contradições internas e externas, tá tudo aí segue vivo entre a nós e as plantas.








perceber e reconhecer os tropismos é útil para nos lembrar de que ninguém é um ser isolado. estamos todos nos equilibrando e crescendo com alguma orientação além de nossas bússolas internas.
Caramba, que texto incrível!