Maravilhamento Diurno
do núcleo do Sol ao fundo da alma.
Na última newsletter, nos maravilhamos com a escuridão. Mas é claro que algo tão fascinante e essencial quanto a noite é a luz. Quase todas as manhãs, posso observar o sol surgindo no horizonte a leste, e amo ver o comecinho, uma faixa dourada mínima surgindo da terra. Então, lentamente, e ao mesmo tempo surpreendentemente rápido, aquele disco flamejante começa a emergir do que foi uma noite escura. Puro ouro. É muito fácil, diante desse momento, pensar: aí vem um deus.
Talvez o evento mais essencial da existência, acontecendo todo santo dia, repetidamente, há bilhões de anos, que nasceu antes de qualquer cidade, de qualquer ser humano existir, antes até do que chamamos de vida existir. Ele já levantava.
Sentir esses primeiros raios de sol tingindo de dourado o mundo, ou os últimos do dia, despedindo-se suavemente do mesmo mundo, me leva direto para a imensidão de tudo. O que é essa luz?
São fótons. Partículas que nasceram no núcleo do sol, numa fusão nuclear, e de lá começaram uma jornada fabulosa. Vagam pelo interior denso do sol, sendo absorvidos e reemitidos bilhões e bilhões de vezes, mudando de direção a cada colisão, quase sem avançar. Plasma a 15 milhões de graus. Caos escaldante. Eles tem que percorrer 700 mil quilômetros do núcleo até a superfície, e, para isso, esse fóton leva entre 10 mil e 170 mil anos. Só então ele chega à superfície do sol. E depois disso, ainda viaja mais 150 milhões de quilômetros em 8 minutos e 20 segundos através do vazio sideral. Tudo isso até pousar em você. Num pássaro. Para dançar e brilhar na água. Para virar glicose numa planta. Não sei aonde você está lendo esse texto, mas desejo que hoje você veja essa jornada terminando no seu braço, no chão da sua casa, ou no rosto de alguém que você ama.
Quando os primeiros fótons entram pelos nossos olhos ao amanhecer, moléculas de melanopsina na retina são ativadas e enviam sinais ao núcleo supraquiasmático, uma pequena estrutura localizada no hipotálamo. Um relógio dentro da nossa cabeça, que sincroniza nosso sono, hormônios, metabolismo e inúmeros processos biológicos. Guardadinho no interior do cérebro, esse pequeno agrupamento de células microscópicas está acompanhando os sinais emitidos por uma estrela gigantesca, ardendo violentamente em plasma e fogo nuclear, situada a 150 milhões de quilômetros de distância. E é assim, com essa comunicação cósmica e biológica, que despertamos todos os dias. A produção de melatonina para. O cortisol começa a subir, e o corpo ouve, é hora, o dia pode começar.
Mas o espanto não para por aí. A luz parece transparente, impalpável. Não podemos segurá-la nas mãos. Não podemos guardá-la em um recipiente. E quando a gente começa a investigar a luz, ela fica cada vez mais misteriosa. O que é exatamente um fóton?
A menor unidade de luz, algo como o átomo da luz. Assim como a matéria é feita de átomos, a luz é feita de fótons. Mas é aí que as coisas ficam estranhas. Em alguns experimentos, se comportam como partículas. Em outros, como ondas. Viajam à velocidade mais rápida do universo, a velocidade da luz. E, de alguma forma, quando luz, velocidade, espaço e tempo se encontram, entramos numa região da realidade que continua um tanto incompreensível para nós. Vai saber.
Mas o que sabemos é que esses fótons chegam aqui. E encontram a terra, as plantas, e folhas com clorofila, que os captura e realiza mais uma magia espantosa, transformando luz em energia química, luz em matéria. Os fótons que fizeram aquela jornada do sol, se tornam açúcar, folha, raiz, tronco, fruto. E aí, os animais comem as plantas, nós comemos as plantas e os animais. Podemos dizer que nos alimentamos de luz. Nosso corpo está funcionando agora porque fótons partiram de uma estrela.
Outros desses fótons pousam nos objetos, e os objetos os devolvem à nossa retina, desencadeando sinais elétricos que o cérebro transforma em imagens. A visão é luz. A luz torna o mundo visível.
Por isso, em tantas tradições, o sol aparece como símbolo da clareza, da percepção e do conhecimento. E a noite, por sua vez, como símbolo do mistério, do inconsciente, do invisível e de tudo aquilo que ainda não chegou à luz.
Na Grécia, Apolo é o deus do sol, da luz, da cura, da música e da clareza. O epíteto Febo significa “o radiante” ou “o brilhante”. Ele representa a capacidade de iluminar o que está escuro e revelar a realidade. Hélio, o sol em si, físico, percorre os céus observando os acontecimentos do mundo. Foi ele quem viu Afrodite nos braços de Ares e foi contar a Hefesto. Foi ele quem revelou a Deméter o rapto de Perséfone.

No Egito, Rá nascia, atravessava o céu e morria todo dia para renascer. Essa é a maior lição do sol: morrer e nascer todos os dias. Penso numa passagem de Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos: "a morte está sempre em processo de incubar uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos." Rá faz isso quando atravessa o mundo dos mortos entre batalhas, mas volta sempre, pois todo dia é possível renascer. Na Índia, Surya, o Sol, é chamado nos Vedas de “olho dos deuses”; aquele que tudo vê, revela e desperta. Ele é também a divindade da iluminação e da libertação, pois Surya não é apenas o Sol exterior, ele é também um Sol interior. O Sol que vemos no céu ilumina o mundo, o Sol interior ilumina a consciência. Por isso, o mantra Gayatri pede que o esplendor solar ilumine o entendimento humano

No Japão, a deusa solar Amaterasu se recolhe para dentro de uma caverna, e sua ausência mergulha o mundo na escuridão. As colheitas fracassam, a ordem se rompe e os deuses ficam desnorteados, entre o caos e as trevas sem a sua presença. Para atrair a deusa solar de volta, os deuses organizam uma festa, colocam um espelho sagrado na entrada da caverna. Amaterasu abre a porta, curiosa, e vê a própria luz refletida. É isso que a faz sair. Quando ela retorna, a vida volta a florescer.

Os mitos nasceram muito antes da física, mas também viram, de sua própria forma, o poder da luz. Que ela mostra, revela, desce do sol e torna as coisas visíveis. Nossas palavras sabem disso, quando dizemos que tivemos uma "iluminação", um "insight", que algo "ficou claro". A psicologia profunda também vive dentro desse mundo de luz e escuridão, tornar consciente o inconsciente é, trazer luz ao que ainda vivia na sombra, dentro da gente.
A força criativa também parece fazer parte desse movimento. A maior das criações, a gestação e o nascimento, vem de um lugar escuro para o manifesto. A vida começa no escuro do útero, e falamos em “dar à luz”. E uma ideia? De onde vem? A criatividade tem essa ligação com a vida e, é gestada longe dos olhos, e então vem a revelação, a lampada se acende.
E por falar em lâmpada, e a luz que acende dentro da nossa casa? A eletricidade é uma força natural que sempre esteve por aí, nos raios, nos peixes elétricos, dentro do nosso corpo, nos nervos, nos músculos, no cérebro, nos átomos. O homem chegou, aprendeu a apreendê-la, e trouxe para dentro dos nossos quartos. Mais uma forma de trazer luz ao que estava no escuro. Se você parar para pensar, é inacreditável. Um toque no interruptor, e uma força invisível, presente há bilhões de anos, atravessa fios escondidos nas paredes e transforma a noite em claridade. Assim como o fóton que toca o seu rosto carrega centenas de milhares de anos de viagem dentro do sol e 8 minutos de travessia cósmica, a lâmpada que acende carrega uma força que já existia em um raio. Luz domesticada.
Tudo que é domesticado corre o risco de parecer habitual, e a gente aperta o interruptor sem espanto, como se fosse óbvio transformar a noite em claridade com um toque do dedo. Mas, a luz é muito maior que nossa compreensão, nunca se entregando por completo ao nosso conhecimento.
Aos 16 anos, durante seus anos de estudante em Aarau, Einstein se imaginou perseguindo um feixe de luz. Se pudesse alcançá-la, o que veria? Essa pergunta, vinda de um momento de espanto, acompanhou por anos, até se tornar a teoria da relatividade. Quatro séculos antes, um homem chamado Marsilio Ficino, em Florença, tambem foi arrebatado pelos mistérios da luz.
Para ele, a luz era o grande vínculo do universo. Ela une o céu e a terra, o visível e o invisível, a matéria e o espírito. A luz toca incontáveis coisas,e vemos todas as coisas graças à luz, mas ela em si é difícil de olhar diretamente. Portanto, ela é uma excelente imagem do divino, do Bem, da Verdade. Nas suas próprias palavras: “a luz é, de certa maneira, mais espiritual que corpórea, porque se propaga em todo lugar sem temporalidade, porque preenche os corpos transparentes sem colisão e porque se espalha pelos corpos grosseiros sem se macular.”
Ao olhar para o Sol ele via um modelo de funcionamento do cosmos, pois o Sol irradia, e por isso cria vida. Então, para ele tudo que existe de mais pleno tende a irradiar, assim como os raios de Sol irradiam pelo espaço. Numa das passagens do De Sole, Ficino escreve que, sem o sol, os olhos nunca teriam existido. A vida só desenvolveu órgãos para captar a luz porque a luz estava lá. As cores também são filhas do sol, cor é algo que acontece quando a luz toca a matéria, e some quando ela vai embora. Como o Sol e os olhos estao profundamente ligados, Ficino ainda desenvolveu mais ideias. Na sua filosofia do amor, ele imaginava que os olhos irradiavam. Recebiam a luz do mundo, mas tambem irradiavam. Ele dizia que quando duas pessoas se olham, acontece o encantamento mútuo. Raios invisíveis atravessam o espaço entre elas, os raios que saem dos olhos carregam um sopro sutil da alma, o spiritus, que viaja e chega ao outro. É por isso que o amor começa sempre pelo olhar. Uma transmissão de alma para alma, pela luz.
Se formos pensar no que sabemos hoje, o encontro de dois olhares é um encontro de luz. Fótons refletem no rosto de uma pessoa, atravessam o espaço, chegam aos olhos da outra. Quando dois olhos se encontram, é luz indo e voltando entre dois corpos. E poeticamente, quem nunca sentiu a força dos raios nos olhos de alguém?
A crença de Ficino vinha de teorias ópticas antigas, que imaginavam raios saindo dos olhos ao encontro do mundo. A física descartou isso, embora eu como boa pisciana, não! Mas existe uma bela intuição escondida no pensamento dele. O olho é literalmente um órgão moldado pela luz. Durante centenas de milhões de anos, a vida foi sendo esculpida pelos fótons. Primeiro células capazes apenas de distinguir claro e escuro. Depois manchas fotossensíveis. Depois cavidades. Depois lentes. Depois retinas. Os olhos são um produto da luz, mais uma interação entre a estrela e o bioma da Terra.
E voltando à força criadora da luz. Na tradição judaico-cristã, Deus dissipa o caos e as trevas com uma palavra: Fiat lux. Faça-se luz. Et facta est lux. E luz se fez. No princípio, antes de tudo, ele dispersa as trevas e traz a criação, a vida, tudo. E a gente também pode fazer isso. Parar um momento e também fazer e esse decreto sobre a própria vida. Iluminar uma situação obscura, um momento que está mais escuro. Criar algo a partir do nada, ampliar o que ainda não se conhece. Olhar para o que está cinzento, sombrio, e dizer: aqui também, haja luz. E a luz se fará. E assim compreender que, mesmo nas perdas, mesmo nas situações mais difíceis, com o tempo, alguma luz vai ser feita daquilo.

Enquanto a gente caminha por essa vastidão de vida, em um planeta aquecido por uma estrela de plasma e fogo nuclear, onde os raios que chegam até nós levaram centenas de milhares de anos para nascer, temos o privilégio de poder se maravilhar e contemplar. Penso em Jung, e em o que ele escreveu em suas memórias: o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão da mera existência.











Que encanto esse compilado de ciência e filosofia que você fez.
Eu amo sua newsletter. Podia virar e-book para degustar tudo junto, lentamente, em uma tela mais apropriada do que meu celular ou desktop. Que preciosidade ter encontrado seus textos!