Feridas Fossilizadas
Âmbar, pérolas e a inteligência secreta da cura.
Âmbar. Essa substância brilha que nem pedra preciosa mas não é exatamente um mineral. É uma resina fossilizada de árvores antigas. Eu lembro de quando no inicio dos anos 90, fui ao cinema assistir Jurassic Park. Só quem viveu sabe o que foi ver aquele fime com os dinossauros vivos, caminhando no nosso mundo. Mas algo que sempre me marcou foi a ideia de que tudo aquilo existia por causa de uma resina de árvore que guardava um inseto, que tinha o DNA do dinossauro. Milhões de anos de vida guardados em âmbar. Nunca parei de amar âmbar, ficou pra mim como um portal mágico, mínimo, mas que continha informações de outros tempos.
Só o fato das árvores soltarem uma resina meio mel, amarela, laranja, dourada, jóia natural, já é motivo de grande admiração. Pois bem, a resina é um líquido espesso, viscoso e aromático que a árvore libera quando o tronco é ferido, seja por quebra da casca, ataque de insetos, fungos ou ação mecânica. Olha que coisa bonita, essa jóia luminosa e natural, vem para selar uma ruptura, estancar uma ferida. Assim como no corpo humano, quando temos uma ferida, quando a pele é cortada, o corpo também trabalha de forma parecida. No processo de coagulação o sangue começa a espessar, a se adensar e vira uma massa coagulada, protetora.Com o tempo, seca endurece, e vira uma crosta, a famosa casquinha, que protege o local enquanto a cura vai acontecendo por baixo.


Ambos os sistemas , humano e vegetal, fazem algo semelhante, usam um liquido vital para cura. Seria o coágulo a resina do corpo, e a resina o coágulo da árvore?
No caso do corpo, a gente fica com uma marca na pele, a cicatriz daquele acontecimento que atravessamos, e que nosso corpo incrível, por meio de processos microscópicos e celulares, conseguiu curar. No caso das árvores essa resina, nessa ferida, se transforma em jóia. Âmbar.
No fundo do mar, algo semelhante acontece. Um molusco sente um incômodo. Pode ser um grão de areia, uma partícula estranha ou até um parasita que entra em sua concha. Isso fere um pouco, desequilibra o organismo. E o que a natureza faz? Pérola. O molusco simplesmente reage. Camada após camada, ele vai encapando aquele corpo estranho com nácar, uma substância brilhante e resistente que também reveste o interior da concha. O nácar é composto por finas lâminas de cristais de aragonita, entrelaçadas com proteínas orgânicas que atuam como cola e proteção. Essa combinação, minuciosamente organizada pela natureza, cria um material até 3.000 vezes mais resistente do que a aragonita pura. Assim, a defesa se transforma em jóia. Ela é orgânica e viva na origem, não precisa de corte ou lapidação, pois já nasce com sua beleza. É produzida como resposta a um trauma, uma defesa natural do corpo que a criou. E no caso da madrepérola, ela faz algo ainda mais colorido. A partir do desequilíbrio, do objeto invasor, o molusco vai revestindo seu interior com uma camada protetora, iridescente, luminosa, viva.

Também tem a madrepérola, com sua arquitetura microscópica desalinhada e precisa, não apenas protege, mas reflete luz em múltiplos tons, criando esse brilho mutante e colorido. Agora, esse corpo que foi ferido cintila por dentro. Sei que, no mar, esse processo, que também traz brilho às feridas, não pode ser chamado de fossilização como o Âmbar, mas de mineralização. Ainda assim, trata-se de uma forma de dar limite à ação do que fere, de paralisar seu avanço ali, e ao mesmo tempo, tornar tudo mais brilhante e vivo.
As árvores com sua própria resina, líquido ouro vegetal, que ao longo do tempo vira âmbar. Isso também leva muito tempo, muito mais que as pérolas, uns milhões de anos, em um processo que envolve biologia e geologia. Mas enfim, a ferida na árvore se transforma nessa jóia , com brilho dourado, iluminado com tons de sol e fogo vivo.
Portanto, a força não está em esconder as quebras, as feridas, e sim em valorizá-las, enxergá-las e integrá-las. Tanto na terra quanto no mar, os ferimentos se tornam materiais preciosos. Brilhantes.
E no campo psicológico? Muitas das nossas feridas não são físicas, não aparecem na superfície. São rupturas, cortes emocionais, psíquicos. Não podemos ver concretamente nosso processo de cicatrização psíquica, como vemos as resinas selarem o corte na árvore . Nem como por dentro, estamos paulatinamente desenvolvendo camadas peroladas. Talvez por isso, esses rompimentos emocionais e subjetivos nos causem mais angústia, eles não são palpáveis ou mensuráveis. Mas essa inteligência natural da reparação e da transformação também existe nesse campo.
Quando atravessamos a dor com consciência e, com o tempo, fazemos o trabalho interno que ela exige, a ferida deixa de ser apenas ruptura. Aos poucos, começamos a olhar para ela com mais calma, compreendendo o que aquela experiência ensinou, sobre a vida, sobre o outro, sobre nós mesmos. E então o sentido começa a surgir, quase como uma resina luminosa que se adensa devagar. A ferida ganha brilho, torna-se forma, vira um Âmbar, ou uma pérola que passamos a carregar. Se sofremos, suportamos e sobrevivemos, não saímos vazios. Enfeitamos a nossa existência com a coragem de persistir, e aprendemos a continuar criando vida a partir da vida.
O processo de cura é justamente integrar o trauma em nossa biografia, não tentar apagar ou esconder. Uma árvore produz resina que, com milhões de anos vira joia fossilizada. Outra produz pérolas a partir de uma interferência perturbadora. Ambas mostram que a natureza cura produzindo substâncias iluminantes.
Se tivermos vivido de verdade, caminharemos com pérolas e âmbar fazendo brilhar a forma como experienciamos e narramos nossa própria vida. Penso que a melhor maneira de carregarmos nossas feridas é podermos vê-las transformadas ( fossilizadas ou mineralizadas) em joias. São marcas que não se expandem mais, que pertencem ao passado, mas que foram cobertas, contidas e lapidadas pelo tempo e por nossa força interior. E hoje, já integradas, carregam valor no presente. Que você caminhe ornamentado com suas joias psico-emocionais com muito apreço.








Uau! Fui procurar e achei!! Realmente é bem recente! Primeiro mosquito fossilizado em âmbar da América do Sul!!! Vc está no Equador? Ou foi modo de falar?
gosto muito do que você escreve! lindo texto