Como recomeçar do nada
Lições de uma rainha inseto e Carl Jung
Essa semana conheci uma rainha do Ártico. Pense em uma rainha de cerca de três centímetros. Um serzinho minúsculo e peludo, mas que carrega uma responsabilidade e uma capacidade cósmica de gigantes: recomeçar do nada, reconstruir um mundo.
Graças ao sir David Attenborough, fui apresentada à queen bumblebee, a mamangava do extremo norte. Uma criaturinha pequena, peluda, resistente e completamente solitária. Aliás, até o próprio Attenborough, que já viu quase tudo, escolheu essa história como uma de suas favoritas.


Pois então, imaginem… o outono termina no Ártico. A luz solar é rara e curta, os ventos são cortantes, o mundo, pálido e silencioso. A temperatura despenca para níveis que fariam qualquer criatura sensata recuar. É nesse intervalo, quando as flores morrem, o néctar desaparece e cada inseto sucumbe ao frio, que a rainha bumblebee se torna a última chama viva da sua espécie naquele território.
Sim, a única sobrevivente de uma colmeia inteira. Todas as operárias morrem. Todos os machos morrem. A sociedade viva do verão se dissolve sem resistência, chegando ao fim. A natureza decidiu assim, apenas a nova rainha terá reservas suficientes de gordura, força metabólica e um tipo de hibernação extrema para atravessar o inverno. Ela é como uma semente da colmeia, a última portadora de um povo inteiro.
Então, sozinha, com o corpinho pesado e o voo lento, ela inicia sua peregrinação final, procurando uma toca abandonada de algum roedor, ou uma fenda profunda no musgo, qualquer cavidade que ofereça o mínimo abrigo para o desligamento que virá. Quando encontra o lugar certo, ela se recolhe como quem devolve o corpo à terra, e mergulha numa vida suspensa, uma quase-não-vida, uma espécie de hibernação bem profunda, a diapausa.
Cerca de nove meses depois, quando a primavera ensaia chegar de mansinho, ela desperta. Ao despertar, não sai voando de imediato. Primeiro, precisa se aquecer por dentro. Vibra as asas, o corpo, para gerar calor. Precisa se reviver, esquentar o próprio sangue. Essa vibração aumenta sua temperatura interna em até 30 °C acima da do ambiente. É o primeiro milagre: uma criatura de três centímetros incendiando o próprio corpo para voltar à vida. Quando pode começar a se mover, ela engatinha para fora da toca. A luz ainda é fraca, o ar ainda muito frio. Ela está recomeçando do nada.
Ela voa baixinho, trêmula, quase desgovernada. Cada batida de asa é uma economia de energia, e se ela errar a flor, morre. Ela procura as primeiras flores árticas: saxífragas, salgueiros-anões, qualquer coisa que contenha microgotas de néctar suficientes para dar o combustível inicial. Esse néctar é literalmente a ponte entre a morte e a vida.
Depois de despertar e se nutrir, a rainha precisa encontrar um ninho. E isso significa voltar ao escuro para recriar o mundo. Ela não constrói a colmeia no ar, nem nos galhos, ela volta ao subsolo, onde a vida começa com humildade. A palavra “humildade” tem origem no latim humus, que significa “terra”.
Esse lugar precisa ser isolado, um pouco quente, e pequeno o suficiente para funcionar como um útero de terra. Dentro dessa cavidade, começa a fundação da colônia, e tudo parte da arte do potinho. Sim, um potinho. Ela raspa cera do próprio corpo e, com uma precisão que parece mágica, molda um pequeno vaso, o famoso potinho de néctar. Uma tigelinha redonda, lisa, minúscula e perfeita. Depois, o enche com néctar concentrado. Esse recipiente é sua garantia de sobrevivência. Com ele, ela não precisará se afastar muito do ninho, podendo incubar seus ovos sem o risco de morrer de fome.
Ao lado do potinho, ela constrói outra estrutura de cera: a câmara de cria, onde depositará os primeiros ovos. É uma arquitetura mínima, simples, porém impecavelmente precisa, feita com a boca, com as mandíbulas, com um tipo de delicadeza que só existe em quem trabalha sozinha.
Quando o pote está cheio e o berço pronto, ela fertiliza os primeiros ovos e os deposita na câmara. Serão operárias fêmeas, suas primeiras filhas, aquelas que um dia assumirão o trabalho. Mas até que nasçam, ela ainda está absolutamente só.
Então chega a fase da incubação, e aqui ela se torna o próprio sol no subsolo. A rainha se senta sobre os ovos, literalmente, como uma ave, e vibra continuamente os músculos das asas para gerar calor. Precisa manter a temperatura estável. Só se afasta para beber o néctar do potinho, e retorna rápido, antes que o frio mate o que ainda não nasceu. Sozinha, ela aquece o mundo que virá.
Dias depois, quando o calor do seu corpo já cumpriu o milagre necessário, as primeiras operárias emergem. Pequeninas, trêmulas, mas vivas. E assim que nascem, começam a trabalhar: buscam néctar, coletam pólen, ampliam o ninho, alimentam novas larvas, limpam, defendem, constroem. A rainha deposita, então, a sua coroa invisível. Dali em diante, torna-se apenas a matriz da colmeia, e as filhas erguem o império do verão.
Se um serzinho vivo consegue reconstruir um povo inteiro a partir do nada, depois de atravessar um inverno extremo, talvez você possa lembrar dela quando tiver que recomeçar algum ponto da sua própria vida. Na psicologia junguiana, a psique não está apenas dentro de nós, ela também está fora, inscrita na natureza, refletida nos seres vivos que repetem nossos padrões em outra escala. A natureza é uma correspondência viva da alma.
Temos essa rainha minúscula do Ártico dentro de nós. Ela pode se tornar um símbolo nosso, um lembrete de como agir para recomeçar do zero. Notem que descrevi o movimento da abelha passo a passo, não foi por acaso. A rainha não conhece o futuro, ela apenas executa o próximo gesto necessário. Ela me lembrou um texto de Jung.
Sim, é exatamente isso que Jung disse em uma carta, em 1933, respondendo a uma pergunta sobre como viver: não existe mapa, existe só o passo seguinte.
Em 15 de dezembro de 1933, Jung respondeu a uma mulher que havia pedido sua orientação sobre “como viver”:
“Querida Frau V.,
Suas perguntas são irrespondíveis, pois você quer saber como se deve viver. Vive-se como pode.
Não há um único caminho definido para o indivíduo que lhe seja prescrito ou que seja o correto.
Se é isso que você deseja, seria melhor se juntar à Igreja Católica, onde dizem a você o que fazer.
Além disso, esse caminho se alinha com a maneira média da humanidade em geral.
Mas se você deseja seguir seu caminho individual, ele será o caminho que você construir para si mesmo, que nunca é prescrito, que você não conhece com antecedência, e que simplesmente aparece quando você coloca um pé na frente do outro.
Se você sempre fizer a próxima coisa que precisa ser feita, você percorrerá com total segurança e a passos firmes o caminho determinado pelo seu inconsciente.
Então, naturalmente, não ajuda em nada especular sobre como você deve viver.
Você entende que não tem como saber, a não ser fazer a próxima e mais necessária coisa.
Enquanto você achar que ainda não sabe o que é isso, ainda tem dinheiro demais para gastar em especulações inúteis.
Mas se você fizer com convicção a próxima e mais necessária coisa, estará sempre fazendo algo significativo e pretendido pelo destino.”
Essa carta, escrita há quase cem anos, revela uma inquietação que ainda existe em nossas vidas urbanas e corações apressados… como se vive?
A rainha bumblebee desperta, aquece o próprio corpo, procura uma flor, escolhe um abrigo, molda um potinho, deposita um ovo. Nenhum desses gestos é grandioso, mas todos são essenciais.
A biologia, como a psicologia profunda, desenha a construção do recomeço. Não são apenas as grandes decisões que sustentam a vida, mas a fidelidade aos pequenos movimentos. Se uma criatura minúscula consegue atravessar o nada gelado e reerguer um povo inteiro apenas executando o próximo gesto certo, talvez a gente também consiga.
Mesmo quando tudo parece escuro, frio e sem promessas, ainda assim: vibra, escolhe, molda, deposita. Um passo por vez, e a vida retorna.
No fim, o que a rainha do Ártico e Jung têm em comum? Ambos fazem com convicção a próxima coisa necessária. Vai fazer seu potinho de néctar.



Que lindo, lindo. Inspirador demais 🐝
Mais um texto maravilhoso! Queria um livro com todos os seus textos. Espero que chegue a esse ponto em algum momento. 🤍