Capacidade Geradora
No fundo das coisas, o essencial está em processo.
Hoje, inicio de Fevereiro, celebra-se o Imbolc. Do ponto de vista astronômico, o Imbolc marca o meio do caminho entre o solstício de inverno, o dia mais curto do ano, e o equinócio da primavera, quando luz e escuridão têm a mesma duração. É a metade do percurso entre o inverno e a primavera. O frio ainda está presente, e como! Mas algo já mudou em silêncio… O pior ficou para trás. A noite máxima já passou.
Imbolc nasceu na Irlanda antiga, muito antes do cristianismo, quando o tempo era marcado por estrelas, movimentos do Sol, da Terra e do cosmos. Não havia data exata, mas outros sinais da existência, muito mais amplos que números no calendário, como o alargamento quase imperceptível da luz dos dias, o leite voltando as ovelhas prenhas, ou passarinhos que chegam de migrações de terras mais quentes, e trazem novas trilhas sonoras para os dias. Isso tudo, sendo atemporal, mas ao mesmo tempo marcando o tempo, acontece até hoje. Forças da natureza que permanecem.
Desde a sua origem, Imbolc está ligado à ideia de gestação. O nome vem do irlandês antigo i mbolg, expressão que remete ao ventre, ao que está sendo carregado por dentro. Há quem traduza como “em gestação”, há quem associe ao leite, numa referência direta às ovelhas prenhas que, nesse período, voltam a produzir leite. Em ambos os casos, o sentido é o mesmo, algo ainda invisível já está acontecendo. Gestar é um processo interno, a vida se recolhe, concentra energia, trabalha longe do olhar. Não há pressa nem espetáculo. Há um movimento voltado para dentro, garantindo que, quando o tempo chegar, exista força suficiente para emergir.

Pensar o Imbolc é pensar também nos invernos da alma. Aqueles períodos em que sentimos um frio interno, um silêncio mais denso, uma solidão difícil de traduzir. Momentos em que a escuridão psíquica parece total e nem sempre conseguimos enxergar algum sinal de saída. O inverno da psique segue uma lógica muito próxima à do inverno da natureza.
Nessas fases, nada parece avançar. Não estamos criando, nem produzindo, nem florescendo. O corpo pesa, a energia diminui, há recolhimento, e muitas vezes o pessimismo se impõe. Com a simbologia do Imbolc, podemos pensar que algo começa a se reorganizar por dentro. Um trabalho lento, profundo, que não pede interferência constante. Reconhecer que o florescimento começa antes de qualquer sinal visível, no escuro do solo. Mesmo quando tudo parece igual, há mudanças acontecendo em camadas profundas. Talvez não estejamos apenas parados, estamos concomitantemente gestando forças. Na vida pastoral da Irlanda antiga, os cordeiros ainda não tinham nascido, mas o corpo das fêmeas já produzia leite. A vida anunciava sua continuidade antes de aparecer. Há fases em que a luz já voltou, mas ainda não somos capazes de senti-la. Essa lógica da gestação não pertence apenas ao Imbolc. Ela aparece também naquilo que, psicologicamente, chamamos de elaboração. Elaborar envolve tempo, trabalho interno, transformação cuidadosa. Algo precisa ser vivido por dentro antes de ganhar forma externa. A natureza oferece inúmeras imagens desse processo.
As árvores no inverno perdem as folhas e recolhem a energia para o centro. A seiva desce, se concentra, se reorganiza. Por fora, não há sinal de vitalidade. Por dentro, o essencial está sendo protegido, alimentado, para renascer.

A fermentação segue o mesmo princípio. O pão, o vinho, o iogurte precisam de repouso, de tempo imóvel. A transformação acontece em escala microscópica, química, silenciosa. Aos nossos olhos, parece que nada acontece, a massa esta lá, paradona. Mas aos olhos a vida, o movimento é intenso, os alimentos estão se enriquecendo.

Na geologia, muitos cristais se formam sem alterar a aparência da rocha. Nada muda na superfície. No interior, átomos começam a se organizar em padrões altamente ordenados, A matéria, oculta, está adquirindo simetria, estrutura e beleza.

Há também um território escuro e profundo onde algo semelhante ocorre…. o sono. Durante o dormir, o ego se afasta mas a psique continua trabalhando. Imagens se reorganizam, experiências encontram lugar, afetos são digeridos. A consciência se recolhe para que camadas mais amplas possam operar, e muitas coisas se processam em nossa vida a partir dos sonhos, essa força da nossa natureza mais profunda.
Todas essas imagens, todos esses processos, talvez possam nos oferecer um ensinamento existencial: o que é essencial está sempre conosco, na nossa capacidade geradora. Mesmo quando tudo parece estagnado ou sem vida, algo fundamental, em outra esfera continua em processo. E chega um momento em que começamos a perceber os movimentos microscópicos, quase imperceptíveis, nessas outras camadas, que, pouco a pouco, darão origem à coisas importantes da nossa vida. Em algum lugar profundo, escondido ou invisível, sempre, algo de maravilhoso está em movimento.



uau uau uau! que texto lindo!!
às vezes a gente encontra o que precisa ouvir em lugares inesperados! E que alívio que é um texto desses, que traz esperança em momentos difíceis. Obrigada!